Brasil Maior e manco

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Artigo | 23/08/2011 - Atualizada em: segunda-feira, 17 de outubro de 2016 5:57

 

O Governo Federal lançou, no início do mês, o Plano Brasil Maior, que delineia uma nova política industrial, tecnológica, de serviços e de comércio exterior, com o objetivo de aumentar a competitividade dos produtos nacionais, a partir do incentivo à inovação e à agregação de valor.

Uma corajosa e aposta do Governo que implica renúncia fiscal de R$ 25 bilhões e financiamentos facilitados via BNDES, de 2011 a 2014, na ordem de R$ 500 bilhões. Boa parte dos eventuais ganhos em competitividade, porém, vai se perder nas estradas esburacadas, nos portos e aeroportos deficientes e mal operados, na precariedade das poucas ferrovias e hidrovias.

O atraso na infraestrutura de transporte e a falta de visão multimodal provocam custos logísticos de 11,6% do PIB brasileiro, contra 8,7% nos Estados Unidos. Essa diferença de 3 pontos porcentuais do PIB representa R$ 120 bilhões, quase o lucro total das 500 maiores empresas nacionais no ano passado, segundo a última edição de Melhores e Maiores, da Exame.

Esse custo impacta a competitividade e as margens de lucro dos agentes econômicos brasileiros, reduzindo-lhes a capacidade de poupança e de investimento, o que desacelera o crescimento, eleva os preços finais e inibe o consumo.
Para que o slogan do Brasil Maior, “Inovar para Competir.

Competir para Crescer”, se potencialize de fato, o país precisa investir, nos próximos anos, R$ 400 bilhões para elevar a infraestrutura de transporte de obstáculo a fator de competitividade, segundo o Plano CNT de Transporte e Logística 2011.

Para que o Brasil aproxime sua infraestrutura rodoviária à dos países desenvolvidos e à maioria dos nossos competidores diretos no mercado internacional, precisa investir R$ 177 bilhões para construção de 9.600 quilômetros de novas rodovias, duplicação de 15 mil quilômetros, pavimentação de 7.600 quilômetros e recuperação de pavimento de 28.700 quilômetros.

Com vistas à Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíadas de 2016, serão necessários cerca de R$ 10 bilhões para a construção e ampliação aeroportos e outros R$ 13 bilhões em projetos rodoviários urbanos em todo o país, para construção de 553 km de corredores expressos para ônibus, os chamados BRTs e a construção de 338 km de vias urbanas. Outros R$ 57 bilhões são necessários para a construção de 500 km de metrôs ou três urbanos e implantação dos Veículos Leves sobre Trilhos (VLT), nas principais cidades do país.

O sistema ferroviário brasileiro demanda outros R$ 94 bilhões para adequar-se às necessidades do país, com a recuperação de 4.600 quilômetros de ferrovias e construção de novos 11 mil quilômetros. Apesar da participação das ferrovias já ter passado de 17% para 25% no transporte de carga, ainda falta muito para o mínimo de 40% ideais.

Precisamos, com urgência, modernizar nossas áreas portuárias e retroportuárias, executar obras de dragagem e de derrocamento, construir novos portos e melhorar os acessos terrestres, para atender às necessidades da navegação marítima nacional.

O Brasil deve investir também no aprimoramento da infraestrutura hidroviária, de modo a aproveitar seus mais de 40 mil quilômetros de rios navegáveis. Hoje, o transporte hidroviário no país não atinge 3% do total da movimentação de bens, quando deviria ser de cerca de 12%.

Havendo decisão política, os recursos aparecem. E, tal qual na política industrial e de inovação, o Governo deveria buscar parcerias na iniciativa privada para suprir suas deficiências de capital e gerência para superar os gargalos em infraestrutura de transporte. Sem isso, o Brasil Maior pode tropeçar na estrada.

Clésio Andrade, senador e presidente da Confederação Nacional do Transporte (CNT)

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